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Arquivo mensal: fevereiro 2014

As frescuras propositalmente associadas ao café

Desde que o café arábica começou a ser difundido no mercado interno brasileiro, vem aumentando a quantidade de frescuras relacionadas ao consumo dessa tradicional bebida.

O café passou a ser consumido massivamente, quando tomou conta dos ambientes menos glamourosos das sociedades industriais. Sobretudo nos EUA, que estava se industrializando, e contou com a cafeína como combustível para os trabalhadores de chão de fábrica. Por essa razão, importava do Brasil quantidades descomunais de café, sempre de baixa qualidade, mas de preço não baixo, mas sim, baixíssimo. Era café robusta produzido com tecnologia agrícola medieval, intensa em mão de obra, em plantations cujas fronteiras eram o horizonte.

No próprio Brasil, o café destinado ao mercado interno sempre foi o pior, ainda quando a capacidade de produzir cafés melhores foi adquirida. Todo mundo conhece o famoso rótulo “para exportação”, que por dezenas de anos foi sinônimo de qualidade mais alta e preços desproporcionalmente maiores – o termo era rótulo de produto especial. A parte boa da produção era destinada aos consumidores estrangeiros, que pagavam em dólar e impunham parâmetros de qualidade aquém do poder contratual do consumidor caseiro.

A Colômbia, incialmente, depois países da Ásia tropical e até da África, despontou como produtora de cafés de alta qualidade, sempre arábica, produzidos de acordo com suas dotações – pequenas propriedades, terras altas, esquemas cooperativos. Sem o benefício de escala, os preços deveriam ser consideravelmente mais altos, para que o produto fosse fonte de lucros significativos. Nossos vizinhos investiram pesadamente em marketing, apoderando-se da imagem do melhor café do mundo.  Sinônimo de bom café é café colombiano.

No Brasil, uma demanda reprimida por produtos de alta qualidade foi percebida como potencial fonte de lucro para os produtores de café. Um mercado poderoso, quase virgem. Mas aqui, alta qualidade é sempre direcionada à pequena, mas endinheirada camada da população que pode pagar qualquer preço, por qualquer coisa. A clásse média não interessa. Pessoas comuns, que trabalham, pagam impostos e buscam lazer nos fins de semana, não são o alvo principal de quem tem um bom produto a ofertar.

Foi então que cafés de alta qualidade, bons cafés arábica produzidos no Brasil, começaram a ter sua imagem sempre associada a ambientes de requinte e sofisticação. Não me parece que o sucesso dessa estratégia foi completo, mas conseguiu-se, sim, deixar o bom café cercado por uma série de afetações, o que vulgarmente chamamos de frescuras, típicas de uma classe de pessoas frívolas, cheia de rituais estrangeiros copiados e vazios de sentido.

Aí a comida que cai bem com café, como pão de queijo (nada mais tradicional), salgados, doces e outras do tipo que se come entre as refeições, virou “comidinha”. Toda cafeteria tem de ter “comidinhas”. E os produtos feitos para o preparo de café, aqueles vendidos para o apreciador preparar sua bebida em casa, têm de custar o olho da cara (o dobro ou o triplo do que custam no exterior), sob a égide de uma imagem de requinte, insistentemente propalada.

A estratégia do requinte serviu como uma luva para que o café-lixo, excessivamente torrado, amargo, aquele com cheiro de remédio, fosse chamado de “tradicional”. Um sinônimo para rústico, que já seria um eufemismo, ainda que menos cínico.

Então o café ruim é aquele para quem quer se sentir na fazenda. O café bom, é aquele das pessoas sofisticadas que comem comidinhas.

Mais um bom exemplo de paradigma que contamina e atravanca a cultura nacional : imagem é tudo. Mais importante que saborear uma bebida e ficar satisfeito, é participar do círculo dos requintados. O importante não é desfrutar para si mesmo, mas sim, ter a imagem de alguém que passa a vida desfrutando. Daí para lanche virar “comidinha” é um passo natural.

 

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Fazenda Santo Antônio da Bela Vista – sinta-se no passado!

Comento agora sobre uma fazenda histórica que visitei em Itu – SP, e que foi objeto de uma matéria no Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba. Como a matéria está extremamente bem escrita e condiz com o que vi quando conheci a fazenda Santo Antônio da Bela Vista, quero antes de mais nada, registrar meu elogio ao  jornalista Marcelo Roma, seu autor. Segue o link – confira: http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/531326/producao-de-cafe-resiste-em-itu-e-faz-jus-ao-passado-historico-da-regiao

A fazenda é bastante antiga, de fato e os pés de café também – por isso são bem altos e frondosos, compondo uma paisagem tradicional e genuína, ótimo para quem quer se sentir num ambiente historicamente importante. É como se voltássemos ao passado mesmo, o que é interessante, por estimular a imaginação, mas para quem conhece um pouco a história da lavoura de café no Brasil, pode ser também um pouco triste. Lembramos, inevitavelmente, de escravos e imigrantes que trabalharam duro para produzir a preciosa rubiácia. Que, aliás, preciosa devia ser para quem tomava o café e para os donos das fazendas!

A realidade do trabalho com café não tem nada de nostálgico, bucólico ou glamuroso. Era estenuação física de sol a sol, diariamente, por anos, e o pior, para que parte do produto gerado fosse incinerado pelo governo brasileiro, afim de evitar que o preço internacional de seu principal produto despencasse.

Não posso falar sobre o trabalho ao longo da história, na fazenda de Maria Isabel Scarpa. Talvez entrevistando-a, um dia, ela mesma possa nos contar sobre isso. Sabemos apenas que o trabalho na lavoura é pesado, como tantos outros, e que as leis trabalhistas são ali seguidas. O trabalho pesado faz parte da história da humanidade e a ele devemos muito do que desfrutamos no dia-a-dia.

Na Santo Antônio fomo muito bem tratados. Um farto café da manhã foi estava à disposição dos vistantes. A visita aos cafezais foi bem guiada, esclarecedora e agradável. Pudemos até jogar café para o alto na bateia, experimentando a sensação de compor uma cena clássica. A própria Bel, como gosta de ser chamada, acompanha a visita o tempo todo (presença do dono no negócio é sempre um excelente sinal). Alguns empregados antigos da fazenda nos falam sobre o dia-a-dia do trabalho e parecem bastante contentes por estarem ali.

Em seguida, somos levados a locais de armazenamento de café, sempre com explicações e conversas em que se tiram as dúvidas dos visitantes. A Bel é muito educada, sempre. Dali, vamos para o almoço, muito bem servido e acompanhado por um conjunto musical de senhores que tocam sambas tradicionais. Muito boa a música, por sinal.

É feita uma torra de café e quem quer pode comprar café no local, na quantidade que desejar (observação: o café é cheiroso e vale a pena comprar para expermentar, mas com ele se faz uma bebida dura). Vale sentir o sensacional cheiro de café torrado e acompanhar o processo.

Após o almoço, pode-se visitar o casarão da fazenda, que fica todo aberto e está repleto de móveis antigos de madeira escura. É certo que se é transportado para o passado! Até para quem não tem imaginação muito fértil. Para encerrar com chave de ouro ainda se pode restar em uma das redes na varanda dos fundos da casa, com vista para as montanhas e para os cafezais. Dá até saudades da fazenda. Caberia uma nova visita! Dessa vez, em maio, época da florada. Fica essa sugestão, inclusive.

Observação: o preço da visita em agosto de 2013 foi de 65 reais por pessoa. Perfeitamente justo. Mais um ponto para Bel.

Depois desse tempo agradável, aproveite para ir até o centro de Itu, caminhar pelas ruas da cidade, ver casas antigas, lojas de antiguidades e o café da Maria Isabel, o Gamela. Você conhecerá uma pequena e aprazível cafeteria e tomará uma bebida que poderia ser bem melhor, não fosse a falta de investimento numa máquina profissional de espresso. Em suma, aproveite o ambiente ao máximo e dê um desconto para a bebida em si.

 

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Escassez de cafeterias boas – Avenida Paulista

Não é novidade que a quantidade de boas cafeterias no Brasil é bem pequena. Mas o mais espantoso é que isso aconteça, para nossa decepção, em Plena Avenida Paulista. Como sofre alguém que procura um café realmente bom no coração financeiro da América do Sul.

É muito interessante que numa região repleta de gente trabalhando sob pressão, não haja um único café que bom de verdade. Os pontos de abastecimento para quem precisa de cafeína são inúmeros. Um pior que o outro. Sobra café queimado, amargo, aguado. E só.

Quem quiser tomar um café apreciando o sabor tem apenas 2 opções:

1. Entrar no Center 3 e ir ao Café do Ponto, no subsolo, onde poderá escolher diversos tipos de cafés, sendo os espressos regionais as melhores opções. Ainda assim, deve-se pedir enfaticamente para o café ser tirado em 3/4 de xícara. De outro modo, fica aguado. E mais: o café regular deles é amargo.

Ao menos o ambiente é agradável e as baristas/atendentes, são educadas e prestativas.

Observação: trata-se de uma cafeteria dentro de um shopping, o que tira bastante a graça de tomar um café. Mas melhor que nada.

2. Entrar no Viena Café, no Conjunto Nacional. Só há um café. Deve-se pedir 3/4, mas ter paciência, pois boa parte das atendentes estranha o pedido. Algumas conhecem a artimanha. Sugiro acompanhamento do pão de queijo deles. É caro e minúsculo, mas muito bom.

A seguir, o único verdadeiro café da região da Paulista.

 
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Publicado por em 10 de fevereiro de 2014 em Cafés gourmet - marcas e opinião, Cafeterias

 

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