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Tradições para serem quebradas

30 set

Ultimamente tenho diversificado minhas degustações de cafés espressos. Tentando driblar a escassez de cafeterias legais em São Paulo, tenho arriscado tomar espressos em pequenos “cafés”, mais discretos. Desses que encontramos às dúzias, não apenas aqui em São Paulo.

Entre patéticos espressos com gosto de cloro, encontrei alguns acima da média. Mas não falarei de cafés específicos e seus sabores hoje. Falarei, na verdade, de um fator comum a quase todos que experimentei e da reflexão a que me levou.

99% dos espressos provados são aguados.É totalmente difundida a cultura do café ao menor custo, ainda que estejamos falando de cafés cuja imagem é trabalhada para manter-se aderida ao rótulo “gourmet”. Não vejo malandragem, no sentido de extrair o máximo de bebida, com o mínimo de grãos (maximizando o insumo caro com água). Vejo, sim, uma espécie de consenso sobre a capacidade de consumidor avaliar a diferença entre um café profissional e perfeitamente tirado e um café tirado em linha de produção.

A mesma origem cultural vejo para a indiferença da maior parte das pessoas em relação aos cafés filtrados. Qualquer um serve, basicamente. Desconhecimento é um motivo demasiadamente superficial. Desinteresse, seria chover no molhado. Essa atitude, ou falta de, em relação ao café, mesmo sendo a bebida mais conhecida do mundo e especialmente cara aos brasileiros, é a ponta final de um iceberg cuja base é cultural. E a água que forma esse iceberg é a lógica capitalista de um determinado período histórico, circunscrito a um contexto já passado, mas não superado.

O café chegou aos Estados Unidos antes de sua industrialização, mas em compasso com esse processo foi que se massificou. À época, como já abordado em post anterior (post: “Por que tomamos cafés fajutos”), nem sequer havia um método de filtragem muito prático. Tomava-se café fervido na panela durante horas, o dia todo. Muitas doses, pouco sabor alto nível de cafeína no sangue garantido. A lógica era: o café deveria ser massivamente acessível para consumo diário, para não dizer “horário”. Era o elixir da alienação no trabalho! A produtividade encontrava seu combustível.

Na mesma época, o Brasil começava a se tornar grande exportador de café. Abundância de terras e mão de obra barata, além da concentração fundiária, eram as características produtivas brasileiras, o que favorecia a produção em latifúndios, em grande escala e sem nenhuma ênfase na qualidade do produto.

A cultura da qualidade passou ao largo de nossa cafeicultura, desde sua gênese, dadas as características de seu maior mercado consumidor. 70% do café do mundo era produzido no Brasil no auge da exportação do café, sendo 100% da produção de baixa qualidade, mas adequada ao consumidor norte-americano.

O hábito do brasileiro no consumo do café foi formado de maneira reflexa ao dos americanos, mas com adaptações regionais. Aqui, a industrialização não teve papel importante na formação desse hábito, mas a dos americanos, sim, teve. Um dos toques brasileiros ao café foi o acréscimo de açúcar. E não deve ser para menos. Nada melhor para contrastar com o amargor do café robusta, precaria e massivamente cultivado por aqui. E açúcar no Brasil sempre foi ingrediente abundante. Não apenas com o café constatamos a larga difusão de seu uso, mas também com a infinidade de doces melados da cozinha tradicional brasileira.

Até hoje, basta se sentar em um balcão de cafeteria e observar a quantidade monstruosa de açúcar que a maior parte das pessoas verte sobre o café. Uma andança pelo interior de SP ou MG e facilmente se verão as pessoas tomando uma xícara de café de garrafa com 4 ou 5 colheres de açúcar.

Não é para menos que, astutamente, a indústria do café ruim e barato o chama de café “tradicional”. Não há mentira em sua estratégia de marketing, mas há a cristalização de uma tradição arcaica, ultrapassada e sem razão de ser perpetuada.

Essa mesma tradição segue viva no preparo do espresso. Visto como mais “forte”, acaba sendo feito com muita água e pouco café. E tchau sabor! Não se consegue aproveitar o que um café tem de bom a oferecer, se não estiver bem tirado. Quando aguado, quase todos têm o mesmo gosto. Algo parececido com um chá concentrado, meio oxidado. Faça a experiência: vá a um lugar onde se sirvam bons espressos e sinta todo o gosto novo que jamais sentiu nos cafés de balcão regulares.

Vamos romper tradições! Explicarei como podemos começar:

Seja exigente com os espressos. Uma boa opção é peder 3/4 de xícara. A maior parte dos atendentes ou baristas entendem perfeitamente, ainda possa haver males-entendidos com os menos instruídos. É um risco a se assumir.

Se o café vier aguado, peça que seja tirado outro. Dificilmente isso é negado. Algumas caras de má-vontade podem vir, mas aí, basta riscar a cafeteria de sua lista. Frequente apenas as de bom atendimento. Isso tem mais poder de mudança do que pode parecer.

Converse com os atendentes sobre o café, explicando que não os quer aguados. Se apelarem para a regulagem da máquina, sugira que seja revista.

Para avaliar se o café está bem tirado, primeiro, fique atento ao gosto. Se parecer oxidado, ou seja, se tiver um gosto muito fechado e pouco agradável, com leve amargor, deve haver excesso de água e a qualidade do café não é das melhores. Quando for bom o café, mas houver muita água, a bebida estará como um chá um pouco mais forte. Você não estará tomando um espresso bom, como deveria ser.

Fisicamente, o bom espresso possui creme consistente e cor de caramelo. Isso quer dizer que houve boa extração dos óleos dos grãos, não está queimado e não está aguado. A velha maneira de se avaliar é: polvilhe o açúcar sobre a bebida e veja como os grânulos afundam. Se não houver muita resistência do creme, é mau indício.
E não se esqueça: tradições ruins devem ser rompidas!

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2 Respostas para “Tradições para serem quebradas

  1. Celso Araujo

    4 de outubro de 2011 at 17:17

    A tradição vem do hábito, vem de as pessoas confundirem “este é meu HÁBITO” com “eu GOSTO de fazer desse jeito”. São coisas diferentes, certo? Mas é fácil confundir. Exemplo bobinho: não é porque alguém tem hábito de pegar ônibus lotado e demorado que o indivíduo gosta disso…

    Isso vem um pouco da inércia do hábito: eu sempre fiz assim, então assim que é bom, logo é assim que eu gosto. A pessoa nunca EXPERIMENTA fazer de maneira diferente. Aí, quando alguém chega e mostra uma maneira melhor (quando a pessoa se deixa levar pela experiência – claro), é comum ouvir elogios.

    Aonde quero chegar com isso? Que nós, enquanto consumidores, devemos sempre exigir pelo melhor peoduto, pelo melhor preparo. Que nós, enquanto amigos ou visitas (caso o nível de intimidade permita), temos o dever de propor alternativas no preparo do café e mostrar como aquele chafé aguado e melado pode se tornar algo realmente saboroso. Enquanto houver muita gente disposta a comprar grão vagabundo, haverá muita venda de grão vagabundo e a qualidade não vai melhorar. Enquanto houver muita gente tomando café feito de maneira duvidosa, haverá quem o prepare assim.

    Lei de mercado, pura e simples. Usemos isso ao nosso favor e sejamos agentes da mudança.

    Excelente texto!

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    • Apreciar café

      4 de outubro de 2011 at 18:19

      Celso, concordo 100%. Vejo-me no papel de ajudar a alavancar essa mudança. Já que gosto e tenho algum conhecimento, devo fornecer os bons exemplos que conheci em meu processo de estudo! Conto com você também, claro! Obrigado!

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