RSS

Café: a bebida e o ambiente

01 set

“Tomar um bom café” – uma experiência muito prazerosa, que agrada a muita gente. O aroma e o sabor da bebida constituem uma das mais universais memórias. Mas outras sensações relacionadas à bebida costumam povoar o imaginário coletivo. Essas lembranças passam pelas experiência socializantes proporcionadas pelo café, as conversas, os lugares, as pessoas. Por isso, atribuo muita importância às cafeterias, além dos cafés, propriamente ditos. Ambos os termos, frequentemente, se confundem, aliás. “Vamos a um café?” Entende-se facilmente que o convite é para uma cafeteria.

 

São Paulo, a terra do café, por excelência, ainda é pobre em grandes cafeterias. Encontram-se facilmente muitos pequenos cafés de bairro. A maior parte, amadores. Agradáveis pontos de parada para boas conversas, comer um pão de queijo, ou um doce. Mas poucos servem cafés bem tirados, de boa qualidade.

Em férias, me lembrei de uma das poucas cafeterias de São Paulo. Dessas grandes, onde o café é bem tirado e há muitas mesas para nos sentarmos para ler, conversar e tomar outras bebidas especiais – o Café Santo Grão. Havia estado lá há uns 3 anos, quando não gostei muito da passagem. Mas nem me lembrava bem o porquê. Quis tentar novamente, agora com outros conhecimentos, outros parâmetros de comparação. Não gostei muito, outra vez.

 O mais curioso, é que o lugar parece ter todos os requisitos para a perfeição em café. É muito bonito, tem uma carta com boa variedade de tipos de cafés (Sul de Minas, Mogiana, Cerrado – este não está na carta, mas há, todas as variedades brasileiras principais de arábica, em suma).

 Garçons e garçonetes ágeis e bem vestidos, cuja beleza parece ter sido critério de contratação, atendem por todo o salão, freneticamente.

 A casa é muito movimentada, mesmo em pleno meio de tarde de meio de semana.

 Sentei-me no fundo, perto de uma enorme e linda aparelhagem de torra. O balcão, se divide com diversos moinhos de café. Ambiente interessante e um gesto gentil: o dono, ou gerente, me entregou as cartas (comidas e bebidas). Em seguida, fui um pouco abandonado, e como percebi que, de costas para porta, seria difícil ser atendido, fui para um balcão perto do salão externo. Uma garçonete me entregou outra carta. Assim que fiz meu pedido, constituído de apenas um café, senti um claro desinteresse por parte dela. Pedi um café “Cerrado”, mas quis mudar quando vi que não constava da carta essa variedade. Fui até perto do caixa, onde se encontrava a garçonete. Ela rasgou o papel com o pedido anterior, num gesto brusco.

 O café estava muito bem tirado. O sabor era agradável. A qualidade da bebida era indiscutivelmente boa. Mas havia algo de estranho me desagradando. Era o ambiente elitista. Nada contra, nem a favor, mas a mim não agrada. Às mesas, mulheres excessivamente maquiadas, vestidas de grifes. Homens de aparência cara e reluzentes relógios tipo Rolex. Mercedes e BMW ´s parando na entrada a todo tempo. Eu estava num tipico estabelecimento da Oscar Freire, a Beverly Hills brasileira.

 Passou a fazer algum sentido o desinteresse instantâneo da garçonete, quando pedi apenas um café (por sinal, o expresso mais caro que já tomei, ainda que eu considere justo o preço).

 Dispenso esse tipo de ambientes, por gosto pessoal. Tomar um bom café, para mim, demanda mais tranquilidade, menos jogo de aparências.Esperei pela hora em que Chiquinho Scarpa fosse desembarcar naquela entrada. Um pouco difícil não se sentir incomodado com tamanha pompa. É o que chamaria de um arranjo tipicamente “over”. Passa dos limites. Aprecio mais simplicidade e hospitalidade.

 Não recomendo, nem “desrecomendo” o Santo Grão! Para quem quiser provar uma boa bebida, vale a pena visitar. E que cada um fique atento às próprias impressões. O Santo Grão é também um bom lugar para se comprar cafés. Podem-se comprar ali diversas variedades de arábica. Os preços são altos, mas não chegam a ser absurdos. Bom café!

 Santo Grão: rua Oscar Freire, 413 – Jardins – São Paulo

Anúncios
 

Tags: ,

13 Respostas para “Café: a bebida e o ambiente

  1. Pedro

    17 de dezembro de 2012 at 23:11

    Gostei do texto, Paulo.

    Comecei a me interessar por café há pouco tempo, o desconforto trazido por ambientes elitistas, no entanto, sempre tive.
    Imagino que isso se deve um pouco à falta de valorização cultural da população em geral. Aprendemos, de certa forma, que o “popular”, ou “culturalmente tradicional” é ruim, e que o que não é popular ou tradicional não é pro nosso bico. O resultado é um separatismo intenso, que é observado em massa também nas galerias de arte e livrarias (destaque pra velhas de shopping tomando champagne, haha)

    Abraços!

    Curtir

     
    • Noite Arábica

      26 de dezembro de 2012 at 20:54

      Sim, Pedro! Há cafés que são projetados para ser lugar de elite.
      O pior é ver o próprio Starbucks chegando ao Brasil, arrasando cafés menores e se direcionando deliberadamente para um público endinheirado.
      Eles são populares no país de origem. Só um café regular para se achar em qualquer esquina. Aqui coloca preços altíssimos como estratégia para atrair a classe média alta. Cria ambientes bastante bonitos, mas deixa a mensagem de que não é para qualquer um frequentar.
      Afinal, quem pode e quer pagar 11 reais por um refresco que um americano médio pagaria 2 ou 3 dólares, sendo que para eles isso seria como pagar 3 reais.
      Vamos pesquisando os ambientes mais interessantes.
      Abraços

      Curtir

       
  2. Francisco Paulo

    15 de março de 2012 at 21:55

    Eu adoro café, curto muito um bom café, assim como já curti muito um bom vinho, porém, gostaria de dar minha opinião, não sobre esse café gourmet, arábico e caríssimos que andam por aí.
    Gostaria de falar um pouco sobre esse café mais popular, que na minha opinião é simplesmente muito caro para o nosso povão.
    Gente, hoje, 1/2 kg de café conolon, custa em média 8,00 Reais, isto é, mais caro do que cinco kg de arroz. Acho aquele selo de (im) pureza que a ABIC coloca nos saquinhos, o maior engodo, pois basta abrirmos um pacotinho de q.q. café, de q.q. marca, para constatarmos a presença de vários objetos não identificados dentro das embalagens. Acho isso um absurdo, uma vez que, não é porque é um café do tipo Popular, que tem que ser tão caro e tão ordinário.
    Abraços.

    Curtir

     
    • Apreciar café

      16 de março de 2012 at 1:39

      Caro Francisco: no Brasil, essa mesma constatação vale para quase tudo que nos é vendido. A gasolina é cara e ruim, o carros são absurdamente caros e umas porcarias simplórias. Você vai a um mercado até mesmo num país economicamente menos pujante, como a Argentina, e vê a diferença com relação aos nossos: eles têm mais qualidade, maior diversidade e pagam menos por isso. Os modelos econômicos concentradores de renda e entreguistas que foram adotados ao longo de nossa história nos levaram a essa situação de alta concentração de renda e de poder. Aqui, somos obrigados a comprar a peso de ouro o que é considerado básico em países mais sérios.
      Isso tudo vale para o café. Exportamos o que é bom a preços menores do que o que nos é ofertado aqui dentro. Um quilo de conillon custa mesmo 8 reais. DE arábica custa entre 35 e 60. É um absurdo. E esses de 8 reais, que deveriam ser arábica, pelo preço, são conillon, da pior qualidade e cheio de impurezas. Têm gosto de queimado. Sabe por quê? Porque eles torram excessivamente para mascarar o gosto das porcarias que misturam ao verdadeiro café. Além de esconder a má qualidade do produto em si.
      A coisa não é fácil para o brasileiro, meu amigo.
      Abs
      Paulo

      Curtir

       
      • Francisco Paulo

        2 de dezembro de 2013 at 23:30

        Paulo, você está com toda razão, entretanto, o que mais me aborrece são algumas pessoas que trabalham na ABIC, vir me falar que se quiser consumir um café de qualidade tem que meter a mão no bolso. Ora, vá pro inferno, rsrs…, isso vem corroborar que o nosso café popular é uma bosta e que aquele selo de pureza que eles põem no pacotinho é o maior engôdo.
        Sabemos muito bem da hipocrisia que assola esse País. Eu duvido que alguém da ABIC compre um café popular que tenha o selo de pureza deles.
        Eu quando estou no supermercado, faço a maior propaganda contra. Ou eles melhoram a qualidade do café popular (torrado e moído com menos impurezas) ou vou continuar alertando as pessoas que esse selo não mede pureza coisíssima nenhuma.
        Abraços.

        Curtir

         
        • Noite Arábica

          18 de janeiro de 2014 at 12:16

          Concordo.
          Nunca considero a presença ou não do selo deles.
          Eles colocam o selo sob critérios mais que elásticos.
          Por a mão no bolso é ótima desculpa para transferir a culpa para o consumidor.
          Pode ser verdade que um café bom custe mais caro.
          Mas isso não quer dizer que o café caro será garantidamente bom, devido ao selo deles.
          Tem de ir pesquisando e descobrindo os bons,
          Recomendo se informar na internet antes de qualquer compra (o site da própria empresa poderá dar uma ideia inicial).
          Se resolver investir às cegas, vá anotando qual presta e qual não presta e faça sua lista.
          Propagandeie os bons!
          Abraços
          Paulo Quintana

          Curtir

           
          • Francisco Paulo

            18 de janeiro de 2014 at 21:14

            Paulo,
            Eu, à medida do possível faço sempre isso que você falou. Propagandeio sempre quando adquiro um café de qualidade.

            Tenho comprado alguns muito bons, mas defendo, também, aquelas pessoas que não podem degustar um café melhor e tem que beber essas porcarias de cafés ” misturebas”, populares vendidos em supermercados. É uma sacanagem isso, até porque, se você for ver bem, para o pessoal assalariado, não são tão baratos assim.

            Vou te falar uma coisa sinceramente, o café popular é o preço que é porque eles sabem que viciam.Tem gente que não fica sem um cafezinho, seja ele ruim ou bom.
            Há alguns anos atrás, 01 kg de café correspondia ao preço de 05 kilos de arroz, hoje isso funciona para apenas 1/2 kg de café, não demora muito, 250 gr custará o preço de 05 kg de arroz, espere e verá.
            Um grande abraço.
            Francisco Paulo..
            .

            Curtir

             
          • Noite Arábica

            6 de fevereiro de 2014 at 21:32

            Francisco, poderia comentar sobre quais cafés mais gostou, daqueles que experimentou?
            Hoje para mim há dois muito bons, a serem comprados em São Paulo:
            Café Raiz de torra clara.
            E quase todos que vende a Isabela Raposeiras no Coffee Lab. Estes últimos, porém, custam o dobro do Raiz.
            E sim, o vício carrega as vendas de café desde o início dos tempos do café.
            O historicamente famoso café vendido pelo Brasil aos EUA era de baixa qualidade. E servia para manter os operários da indústria bem ativos.
            E pode estar certo de que devia ser angustiante ficar sem a cafeína.
            O mesmo, o vício, puxa a venda de erva-mate no sul do Brasil, Argentina e Uruguai.
            É gostoso tomar, mas quando a pessoa se acostuma, sempre busca o produto.
            Digamos que seja um vício leve, mas é sim.
            Abraços
            Paulo

            Curtir

             
          • CHICO PAULO

            7 de fevereiro de 2014 at 19:02

            Paulo,

            Eu estou sempre em Teresópolis e tomo bons cafés por lá.

            O último que eu adquiri e degustei foi o Orfeu, um café bem encorpado, suave, com corpo que chega ser um pouco aveludado. O Eurídice, como o nome apregoa, já é mais suave (dou sempre preferência por cafés mais fortes).

            Gostei bastante e trouxe alguns pacotinhos p. casa. (tenho diminuído um pouco o consumo pois o calor aqui no Rio está desumano e infernal, rsrsr)

            Esses que você citou, não conheço.

            Um grande abraço pro amigo e um ótimo final de semana.

            Chiquinho.

            Curtir

             
          • Noite Arábica

            10 de fevereiro de 2014 at 18:35

            Olá, Francisco!
            Esses que mencionou já provei.
            Os que comentei são aqui de São Paulo.
            Quando tiver novidades (novos cafés provados), conte-nos!
            Abraços
            Paulo Quintana

            Curtir

             
          • Francisco Paulo

            10 de fevereiro de 2014 at 18:49

            Paulo,
            Pode deixar que estou sempre antenado no site.
            Um grande abraço.
            Chiquinho.

            Curtir

             
          • Noite Arábica

            10 de fevereiro de 2014 at 18:51

            Chico, fique atento aos novos posts, pois nele falarei dos cafés na Itália. Acho que vai gostar de saber.
            Abs
            Paulo

            Curtir

             
          • Francisco Paulo

            11 de fevereiro de 2014 at 14:50

            Valeu, Paulo,
            Estou sempre de olho nos novos posts.
            Você vai pra Itália? Que chique, só tenho amigos chiques, por isso sou Chiquíssimo, rsrs…
            Abraços e Boa Viagem
            Chico.

            Curtir

             

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
Brasilagro

Brasil Agribusiness News - Brasil Agronegócios

Hearts and Minds

O que não muda é que tudo muda.

Tom Fernandes

"‎Quando eu era menino, todos me chamavam de mentiroso. Agora eu sou adulto, e me chamam de escritor." Isaac Bashevis Singer

Kelly Cristina

A única fonte de felicidade está dentro de nós mesmos, e deve ser repartida. Repartir as alegrias é como espalhar perfume sobre os outros: sempre algumas gotas acabam caindo sobre nós mesmos. Sou apaixonada pela minha familia e pelo meu trabalho, sei que a cada dia eu tenho a oportunidade de aprender um pouco mais.

Juliana Lima

Tudo para quem não vive sem um bom café! A gastronomia do café. O preparo do café - coador, prensa francesa, café espresso, café expresso, máquinas de café, café em grãos, xícaras, chávenas, colombian coffee, brazilian coffee

Seu Dinheiro na Internet

Ganhe Dinheiro na Internet sem vender sua alma.

O Mochileiro

Mochila, cultura e experiência.

IMPRESSIONARE (21)99584-4658 (21)3627-5431

Orçamentos: contato.impressionare@gmail.com

Paulo Junior's Blog

"As dificuldades devem ser usadas para crescer, não para desencorajar. O espírito humano cresce mais forte no conflito.” (William Ellery Channing)

CB - CARLOS BESSA ASSESSORIA E VENDAS

vendas; setor moveleiro; mobiliário; treinamento; gestão de vendas; representação

jsazevedoja

Este site WordPress.com é supimpa

Nádia Jung

Porque às vezes as palavras têm de dar lugar ao silêncio, porque às vezes só um gesto inconsciente pode provocar a captura do inexplicável, porque o olho sabe antes que a mente, porque a fotografia é necessária na minha vida ...

Café Etrusca

Café, café de especialidad, café gourmet, insumos para cafetería, maquinaria para cafeterías, mobiliario para cafeterías, barista champ

Desenvolvendo ABAP/4

Just another WordPress.com weblog

tmenegatti

Thiago Menegatti

Dedo-no-zoio

Por que o mundo é dos espertos!

%d blogueiros gostam disto: